Porque a primeira câmera digital
só guardava 30 fotos

David Friedman é fotógrafo e correu atrás de Steven Sasson, inventor da câmera digital, pra produzir um documentário curto sobre sua invenção revolucionária.

Sasson explica no filme que a primeira câmera salvava somente 30 fotos, porque esse número convenientemente é o meio termo entre 24 e 36 poses, padrões dos filmes analógicos. Isso fazia sentido pra ele e pros usuários, também porque era um produto completamente novo e promissor. Pode parecer estranho limitar a capacidade quando era possível oferecer mais, mas ninguém saberia lidar com um aparelho que guardasse 1000 fotos, como é hoje em dia, estando acostumado a gerenciar câmeras com filmes de 24 ou 36 poses. Inevitavelmente, a tecnologia acabou barateando, entrando no dia-a-dia das pessoas, que passaram a absorver as novas possibilidades, e aprenderam a aceitá-las com o tempo.

Basicamente o que isso nos diz é que novidades devem ser lançadas considerando a cultura de quem vai usá-las, ou seja, se algo muito avançado para sua época for lançado com recursos fora do padrão, sua chance de dar errado é maior. Um exemplo de quem não levou isso a sério foi Ted Nelson, criador do projeto Xanadu, o primeiro sistema de hipertexto em 1960, trinta anos antes da invenção da internet por Tim Berners-Lee.

Projeto XanaduA ideia de Xanadu era basicamente que documentos poderiam se associar uns aos outros através de links, e assim promover uma leitura não-linear da informação. Hoje isso é tão banal na internet, que nem percebemos que a usamos não-linearmente. O problema é que sua proposta era tão à frente do seu tempo, numa época em que informação era exclusivamente linear, apresentada em conjuntos de documentos separados, impressos em papel. Ninguém (a não ser o Ted) entendia como esse conceito de transclusão poderia acontecer, e por mais vantagens que ele pretendia trazer para o jeito que usamos e compartilhamos informação, o projeto nunca foi finalizado, transformando Xanadu no projeto em andamento mais longo da história digital, e Ted em um visionário desconhecido.

P.S.: Vale muito à pena conferir a série Inventor Portraits de David Friedman.

2 comentários para “Porque a primeira câmera digital
só guardava 30 fotos”

  1. Rogério

    Muito legal este post!

    Me fez lembrar de um fato que aconteceu em 94 quando eu visitei um empresa (ñ lembro o nome) que importava equipamentos da Agfa. Dentre eles tinha uma câmera digital, do tamanho daquelas antigonas com pólvora.
    Devia ter 1 Megapixel de resolução pois só tirava foto de objetos parados e 1 cor de cada vez (RGB).
    Como não tinha memória, enviava diretamente para um Macintosh (Power PC) via cabo SCSI onde tinha um software que juntava as cores e formava um JPG.
    Todo processo da captura até salvar o arquivo levava em torno de 15 min a 2 h. Por isso tinha que ser feita em estúdio.

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